ESCRITOR OTAVIO LINHARES LANÇA ROMANCE ‘CAVALO DE TERRA’ NA PRESTINARIA SÃO LOURENÇO

Estreando na narrativa de fôlego, Otavio Linhares se consolida como uma das vozes mais singulares da literatura contemporânea.

O escritor e ator Otavio Linhares lança no dia 6 de dezembro, na Prestinaria São Lourenço, a partir das 19h, o romance Cavalo de terra (Moinhos, 155 páginas). Dono de uma prosa autêntica, o autor chega ao seu quarto livro e se coloca como intérprete dos males que povoam a nossa sociedade.

Um dos nomes mais inventivos da literatura produzida no Paraná, Linhares dá voz aos esquecidos e silenciados. Desde Pancrácio, seu primeiro livro, o escritor esmiúça as vidas e as entrelinhas das gentes que João Antônio – talvez o maior cronista dos desvalidos – chamaria de “merdunchos”. Em Cavalo de terra, a estreia de Linhares no romance, a investigação dos invisíveis e das relações com o espaço urbano ganha uma potência avassaladora.

Se de um lado existe uma linguagem de experimentação, construída a partir do dialeto das ruas –  e da verdadeira voz humana que surge do perigo e da agonia –, de outro há algo monumental: a implosão de uma família à míngua da realidade. O narrador, um sujeito escondido atrás de um nome que não revela, traça o perfil da sua herança. O pai alcoolista, a mãe perdida entre o desespero e o sonho do milagre, os irmãos Tomás – um trombadinha diplomado nas ruas – e João, a tábua de salvação de todos.

Essas existências – nem sempre chegam a ser vidas – se cruzam em uma narrativa crua e chocante, que uma lupa sobre as feridas abertas de toda uma população à margem, esquecida pela sociedade do cansaço e do algoritmo. Para o jornalista e escritor Yuri Al’Hanati, que assina a orelha do livro, os personagens de Linhares são seres à deriva e em cujo andar errático reside um pedido de socorro. “O mal estar gerador de desesperos difusos e desendereçados é o grande personagem do livro”, escreve Al’Hanati.

Partindo desse mosaico social, tão belo e bruto, Otavio Linhares sedimenta o mundo particular que já desenhava em O Esculpidor de nuvens e O Cão mentecapto, e se consolida como um artesão da palavra, um autor capaz de ler e interpretar o que está à sua volta. Nesse sentido, Cavalo de terra é uma literatura de observação e de tradução do mundo, que coloca o leitor cara a cara com a história em um mergulho sensorial por cheiros, texturas e desastres.

Mundo cão
Quem lê Cavalo de terra também está nos “corres” e se depara com os mesmos abismos que os personagens. Esse retrato de um mundo cão, escarrado no rosto de homens, mulheres e crianças deixados de lado é um exercício de empatia. O escritor consegue equalizar ação e dramaticidade, velocidade e torpor, explorando cada uma dessas lacunas em um estilo bastante único e original.

“Linhares nos coloca para frente, nos convida a pensar a literatura como música, ritmo, pintura, paisagem. Há uma beleza que perfura os olhos para que vejamos melhor com nossa sensibilidade ativada, esta capacidade humana tão entorpecida pelos tempos que correm”, comenta a dramaturga, atriz e roteirista Dione Carlos.

Ainda que Cavalo de terra seja a investigação do cotidiano de piás e gurias tipicamente curitibanos, Linhares não faz do seu texto um elemento reducionista, ao contrário. Curitiba é o cenário, mas o romance é uma radiografia do Brasil, de um país partido em cacos que não são de hoje e que espelham uma cultura escravocrata, machista e misógina de exploração. Cavalo de terra é uma obra sobre o agora, mas é também um documento sobre o passado e o futuro.

Sobre o autor
Otavio Linhares nasceu em Curitiba. É escritor, ator e torrefador de café. Tem formação em História, Filosofia e Artes Cênicas. Cavalo de Terra é seu primeiro romance e quarto livro publicado. É autor de O Cão Mentecapto (contos/2017); O Esculpidor de Nuvens (contos/2015) e Pancrácio (novela/2013). Como ator já participou, dentre outras produções, dos filmes Deserto particular (2021), Foram os sussurros que me mataram (2021), Jesus Kid (2019), A Mesma parte de um homem (2019); e das séries Irmandade (2019) e Carcereiros (2020).

Serviço
Cavalo de Terra
Autor: Otavio Linhares
Editora: Moinhos | 156 páginas
Preço: R$56,00
Lançamento – Cavalo de Terra
Quando: 06 de dezembro
Horário: das 19h às 22h
Local: Prestinaria São Lourenço
Endereço: R. Mateus Leme, 3440 – São Lourenço, Curitiba
Informações: 41-9-9911-8664

NOME FUNDAMENTAL DA NOVA GERAÇÃO, ESCRITOR MATHEUS PELETEIRO LANÇA LIVROS DE CONTOS QUE RETRATAM O BRASIL DE BOLSONARO

Nome fundamental da nova geração, escritor Matheus Peleteiro lança livros de contos que retratam o Brasil de Bolsonaro

Nauseado reúne 21 narrativas curtas que abordam temas urgentes como fake news, bullying, discurso do ódio e fundamentalismo religioso.

O escritor baiano Matheus Peleteiro, considerado uma das vozes mais interessantes da sua geração, publica em dezembro seu oitavo livro, o volume de contos Nauseado (Faça você mesmo, 148 págs.). Costurando uma prosa existencialista a uma análise contundente do Brasil atual, a obra é uma sinfonia para uma país despedaçado e colocado contra a parede. Ainda que Nauseado esteja recheado de narrativas fortes e pontiagudas, Peleteiro consegue criar histórias capazes de levar o leitor pela mão e apresentar, com leveza, um mosaico de belezas e choques.

Matheus Peleteiro compõe um itinerário para a perda da inocência. Diante da barbárie, seus personagens são lançados ao seu lado selvagem e à necessidade irrefreável de sobreviver. Relatos como “Calcinha preta”, “A Síndrome do fodido” e “Os Sete pecados literários” apresentam um cenário distópico travestido de realidade, seja em um recorte íntimo, em que é preciso escapar do bullying, até à promessa de se refazer das próprias cinzas.

Nesse intricado diálogo de temas e influências, Nauseado trata de questões urgentes – a ascensão da extrema-direita, o discurso de ódio, o fundamentalismo religioso e o não pertencimento, só para citar alguns temas – e atravessa uma colcha de retalhos de influências, que vão de Agatha Christie a Kafka, de Belchior a Sartre, passando por símbolos da cultura pop como Arctic Monkeys e The Strokes – como em “O Indie e o hipster” –, para compor o retrato de uma juventude entediada e perdida, mediada por algoritmos e sem consciência da sua invisibilidade.

Por isso, não é exagero dizer que a literatura de Peleteiro é um exercício de empatia e a tentativa de um encontro não marcado com o diferente. “A literatura permite enxergar o outro, enxergar o óbvio e enxergar aquilo que não está tão claro, então, acredito que pode sim oferecer soluções. No entanto, gosto de pensar nela como utopia que alimenta quando não se tem o que comer ou no que acreditar”, explica o escritor.

Um fósforo no escuro
Poucas vezes a frase atribuída da Cortázar, de que o conto precisa vencer o leitor por nocaute, fez tanto sentido quando em Nauseado. Peleteiro, que publicou seu primeiro livro aos 20 anos, já um autor maduro, um artesão da sua própria ficção, sabido de seus caminhos e limitações. E todos esses elementos dão aos seus textos uma originalidade e uma liberdade que parecem incomum aos nossos tempos – tão regrados pelas fake news e pelas fórmulas de sucesso, ambas fissuras sociais que são debatidas pelo escritor.

A sensação que se tem ao ler os 21 contos de Nauseado é um mundo fragmentado e pragmático, escondido em pequenas erosões cotidianas e de certezas em decomposição. “A Alavanca”, que abre o livro, e “O Último a sair, por favor, apague a luz e me deixe aqui”, conto que ultrapassou os 30 mil downloads no Kindle, são exemplos da criação combativa e atuante de Peleteiro, que consegue interpretar a realidade de uma maneira bastante singular.

“Vejo o presente tempo como um tempo em que a arte precisa ser oposição, dizer não ao horror, como cantou Belchior. Ainda que seja uma espécie de arma branca e simbólica”, comenta Peleteiro. “O papel do escritor continua a ser de um serviçal da literatura, que, como bem definiu Kafka, ‘é como um fósforo no escuro, não ilumina quase nada, mas permite enxergar a escuridão que existe ao redor’. Atribuo a mim o papel de tentar acender esse fósforo mesmo na tempestade.”

Nauseado é um livro urgente – que foge das ciladas narrativas e dos lugares comuns que o adjetivo pode impor –, e que revela o absurdo encalacrado na história brasileira. Sem meios termos, e chegando no apagar das luzes de 2021, Peleteiro escreveu o livro obrigatório para quem quer entender o nosso presente e projetar um futuro menos opaco e estreito.

Sobre o Matheus Peleteiro
Nascido em Salvador – BA em 1995, escritor, advogado, editor e tradutor, Matheus Peleteiro publicou em 2015 o seu primeiro romance, Mundo Cão, pela editora Novo Século. Após, lançou sete obras, sendo elas a novela Notas de um megalomaníaco minimalista (2016), a reunião de poemas Tudo que arde em minha garganta sem voz e a coletânea de contos Pro Inferno com Isso (2017); a distopia satírica O Ditador Honesto (2018), e as coletâneas poéticas intituladas Nossos Corações Brincam de Telefone sem Fio e Caminhando sobre o fogo (2019 e 2021).

Também organizou e editou a coletânea de contos Soteropolitanos (2020); deu início ao Selo ÊCOA – Faça ocê mesmo, em 2021; disponibilizou, de forma gratuita, o conto “O último a sair, por favor, apague a luz e me deixe aqui”, como forma de protesto, em todas as plataformas digitais, e produz o podcast 1Lero, onde realiza entrevistas com expoentes da literatura contemporânea. Além disso, em 2018, assinou, ao lado do tradutor Edivaldo Ferreira, a tradução do livro A Alma Dança em Seu Berço (Editora Penalux), do premiado autor dinamarquês, Niels Hav.

Serviço
Nauseado
Matheus Peleteiro
Editora: Faça ocê mesmo – 148 páginas
Lançamento: 30 de NOVEMBRO (NOVA DATA)  – às 18h30
Local: Palles Sorveteria & Café
Endereço: R. Adelaíde Fernandes da Costa, 700 – Costa Azul, Salvador – BA
Preço: R$ 35,00 – edição física | R$ 19,90 – e-book
Para comprar, acesse: https://bit.ly/Nauseado